Sabe, pode até parecer loucura mas eu te conheço. Não de saber o número do seu CPF ou o nome do seu primeiro cachorro, mas eu te conheço. Não de rosto também, porque minha imaginação não se permite, mas lá na alma. Sei que você deve achar tudo isso maluquice, eu acharia, mas acredita no que eu vou contar que é para você já saber aonde vai pisar.
No começo você nem vai gostar de mim. Vai me achar estranha, distante, fria demais pra você. Depois vai perceber que eu não mordo, mas ainda vai ficar com medo dos beliscões. Vai perceber que a cada três horas tá pensando em mim, numa bobeira que eu disse, numa música idiota que cantei, e vai rir. Vai ter medo. Você não pode se apaixonar.
E aí vai pensar em mim com mais carinho. Vai perceber que afinal, eu nem sou tão estranha assim. Que na verdade até chego perto demais, e que de frio mesmo só tenho as mãos e os pés. Vai achar que a gente pode dar certo, e por isso mesmo entra em pânico. Você nunca lidou com a possibilidade otimista dos relacionamentos.
É que você sempre foi atrapalhado nessas coisas de amor, se atropela, engasga e depois faz picadinho de tudo para ver se consegue engolir e fazer digestão. Mas sinto muito, você não vai fazer isso comigo. Eu vou ficar entalada aí na sua garganta para sempre. E uma hora você vai perceber quando o Paul cantar: let it be, let it be, que é só deixar ser. E nós seremos, eu acredito.
Não me permito te idealizar mais do que isso. Seria falta de juízo. Mas ando te precisando tanto moço, que vê aí na tua agenda se qualquer dia desses sobra um tempo para bater palmas aqui no meu portão, com um sorriso todo sem graça, e dizer: desculpa demorar tanto, é que eu moro num lugar chamado fim de mundo, e tive que vir a pé, me perdoa porque eu também ando te precisando.
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